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Sua Vida nas Quatro
Estações
Na escuridão da noite os javalis se movimentam orientando-se com o olfato e a audição mais que com a vista, um sentido pouco desenvolvido nestes animais que preferem as penumbras e evitam longas marchas pelas noites de lua cheia. A eles é favorável o tempo úmido e nublado, quando mil cheiros excitantes estão difusos em infinitas, e microscópicas gotinhas de vapor, enquanto os desorienta o soprar do vento, que dispersa os rastros de mais odor. Encontrado um local propicio, o javali explora o terreno com seu focinho, onde se abrem as grandes narinas; grunhindo, conversando entre eles, brigando, revolvendo pedras, cheirando, mexem e remexem, reviram aqui e ali com as patas anteriores a procura de raízes, tubérculos, pequenos ratos, minhocas, larvas, lagartos, ovos e ninhos de pássaros. São de fato onívoros: preferem os alimentos vegetais, mas não desdenham de integra-lo com proteína animal. No verão e outono quando a vegetação é rica de bagas e de frutas, de novas raízes e brotos de amêndoas e trufas, quando os cereais dão espigas cheias de grãos maduros e as batatas e beterrabas acumulam amido e açúcar nos seus tubérculos subterrâneos, os javalis podem se banquetear em uma variedade de alimentos assim vasta de lhes consentir uma seleção segundo um gosto pessoal; esta qualidade de batata sim esta outra não. Seguindo o insaciável apetite e atraídos por outros desejos faz com que saiam de seus espaços silvestres e adentrem os limites dos campos cultivados; o camponês encontrará o campo de batatas revirado por uma inesperada aração ou então o campo de milho devastado por longas trilhos batidos que levam a vastas zonas de plantas dobradas ao chão e as espigas roídas. No inverno ao invés, quando a vida vegetal esta em retrocesso prevalece a dieta carnívora; assim os javalis individualizam com seu afinado faro a toca de um rato e abrindo os canais subterrâneos surpreendem os habitantes em profundo sono letárgico; ou senão dirigem sua atenção às carniças, ou às toupeiras ou ainda aos filhotes de cervos e lebres que são descourados antes meter-lhes os dentes.
Na
primavera serão as larvas dos insetos a fazer parte de seu menu, as minhocas,
os caramujos, os lagartos, as rãs, os ninhos de aves
que nidificam sobre a terra como os faisões e perdizes. Também
a serpente é vitima desta onda arrasadora; parece que o javali seja imune
ao veneno da cobra graças à espessura da gordura que se acumula em seguida
a tão frenética comilança. Nas suas idas e vindas a procura de alimento
um macho adulto pode percorrer em uma noite 40/ 50 quilômetros. O fato
é que num ambiente tão habitado como o nosso os longos deslocamentos são
irrealizáveis e provavelmente é bem por isto que eles avancem
nas zonas cultivadas. Antes do amanhecer retornam ao bosque fechado
a procura por um local tranqüilo, amparado do vento, donde transcorrer
o dia. Encontrado o local idôneo, nivelam o terreno com as patas, cobrem
de folhas e capim seco e preparam uma espécie de jazigo. Aqui após vários
alongamentos e bocejadas, se acostam para dormir, com o focinho em direção
à trilha
de acesso, uns juntos aos outros, posto que os javalis como animais
sociais, amam o contato físico com seus semelhantes.
A estação dos amores tem seu
inicio aos primeiros dias de novembro e se prostra ate o fim de
janeiro. As fêmeas de um mesmo grupo entram em cio simultaneamente e este
fato mantêm firme a coesão; todas aparentadas entre si, mães, irmãs e
tias põe ao mundo os filhotes ao mesmo tempo
podendo-se ajudar umas com as outras na criação. Se bem que machos
e fêmeas atinjam a maturidade sexual à idade de sete/oito meses em geral
somente aos ano e
meio /
dois anos se reproduzem. De novembro à janeiro o dia à dia
social dos javalis é conturbado pela tensão amorosa; os jovens
machos se apartam do grupo materno e formam grupos separados, enquanto
os machos mais velhos, os solitários, abandonam a quietude de seus territórios.
Sem mais se alimentar,
batendo os dentes e grunhindo nervosos e irritadiços vagam por
quilômetros e quilômetros vasculham entre as folhas, exploram o terreno,
cheiram o ar para captar o odor das fêmeas no cio, enquanto marcam sua
passagem largando espumas de saliva,
cheiro agudo da urina,
do suor e da secreção da glândula prepucial. Mensagens químicas
de evidente significado aos rivais. Quando
um macho já extenuado pelo jejum avista finalmente um bando
de fêmeas, deve ainda dar-se ao trabalho de enfrentar um adversário. Se
não existe uma prioridade de ordem hierárquica pelo que o jovem cede o
direito ao mais ancião sem discussão, a contenda é resolvida na porrada.
Os machos javalis são equipados de armas mortíferas, as presas, afiadas
como punhais. Se trata dos caninos superiores e inferiores, ambos a crescimento
continuo e voltados para cima. Os superiores mais curtos afiam com o atrito
a superfície dos inferiores muito mais longos. Em geral porem as contendas
amorosas são realizadas em movimentos que não prevêem o uso das presas
e o confronto é uma prova de força e de robustez: os dois machos se enfrentam
procurando cada um de investir sobre o outro. Na maioria das vezes em
poucos minutos o resultado é evidente e a tensão resolvida. Mas se os
dois rivais são de força equivalente se transforma em uma verdadeira luta:
em pé sobre as patas posteriores, ombro à ombro, se empurram, tentam golpear-se
com as presas no pescoço, enquanto cada um opõe os flancos às lancetadas
do rival. O corpo de um macho adulto é extraordinariamente forjado
para a luta: se de um lado evoluiu com armas para assentar lancetadas
de outro lado possui estruturas adaptadas para apará-los, pois que os
flancos e espáduas são cobertos por uma capa de couro mais espessa e muito
robusta que os protege como uma couraça. Semelhante a dois antigos guerreiros,
os contendores lutam em um turbilhão de poeira entre grunhidos e empurradas
ate que um não se declara vencido. O vencedor então executa uma parada
intimidatória com a vitória, para que não haja duvidas sobre o resultado
da luta. A fêmeas não discutem o resultado. Dono do espaço, o macho pode
finalmente desafogar seu apetite sexual. Escolhida a companheira, dedica-lhe
um cortejamento algo rústico, persegue-a procurando monta-la: ela não
esconde em principio uma certa relutância fugindo e gritando, enquanto
o macho a persegue emitindo grunhidos particulares que ao ouvido dela
chegam como sons de um afeto altamente erótico, tanto que ouvindo, a fêmea
assume uma posição de imobilidade que precede o acasalamento. Esta fase
não é um ritual rapidinho: dura váaarios minutos. A gestação se
faz entre 110 à 140 dias, e os nascimentos advém com a chegada da primavera.
No ultimo período a fêmea fica menos sociável e deixa o bando para procurar
no bosque um local mais reparado próximo a água e rico em alimento, para
construir uma cova para o parto. Cava uma depressão no terreno com o focinho,
onde junta uma grande quantidade de folhas, samambaias e musgo, ramos
e capim seco disponibilizando tudo muito bem com seu peso. Enfim
dispõe tudo em volta formando uma borda, resultando em um gigantesco ninho
com aprox 2 mts de diâmetro. Quando chega o momento do parto, a fêmea
se acosta quase desaparecendo no ninho. Em breve vêem a luz os filhotes,
dois / três à primeira gravidez, de quatro à seis a um máximo de dez excepcionalmente
nas sucessivas parições. A mãe, a diferença de outros ungulados, permanece
passiva deixando que os filhos se virem por conta própria. Como emergem
do corpo materno se esfregam nas folhas da
toca, os neonatos se livram dos fragmentos da placenta e do cordão
umbilical. Já tem os olhos abertos, 10 dentes entre os quais 4 caninos
e em poucas horas aprendem a ficar em pé. Um javalizinho experimenta as
duras regras da vida desde este primeiro momento, porque deverá competir
com os irmãos para alcançar o bico mamário que produz mais leite , aqueles
da zona do umbigo.. Assim de pronto os neonatos se empurram e brigam até
que os mais fortes se apoderam das melhores posições , a despeito de qualquer
principio de equidade de distribuição dos
recursos. O pelo estriado em linhas horizontais claras e escuras
, os filhotes se mimetizam com o terreno para escapar dos eventuais predadores
que ficam de tocaia como as raposas, as aves de rapina e os gatos selvagens.
Por uma semana a mãe permanece perto ao ninho saindo somente o estritamente
necessário para se alimentar. É agressiva contra qualquer intruso, congênere
ou não, que se avizinhe. Após duas semanas , quando os filhotes estão
aptos a segui-la se reunirá às outras fêmeas do mesmo grupo familiar e
vivem de forma comunitária no trato de suas crias. . Em geral a fêmea
pare uma vez ao ano,
excepcionalmente duas
em situações favoráveis de habitat
e alimentação, enquanto em situações contrarias pode não se reproduzir. (Original cedido por Sergio Gatti - Traduzido e adaptado por jcprada)
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